
Doutor,
Só no teu coração pode haver Medicina
Porque toda a bondade é criação divina,
E divino serás se, momento a momento,
Buscares aplacar a dor e o sofrimento.
O Pai da Medicina este aforismo escreve:
“É longa a tua arte e tua vida é breve;
Para vires a luz que a verdade irradia,
Terás que tropeçar na vã filosofia”.
Mas não será em vão! Exausto, vai em frente!
O que importa é lançar na terra uma semente,
Que outros hão de vir e lhe darão cultivo
Mantendo teu ideal eternamente vivo.
– A Sagrada Missão de fazer Medicina
Com todo aquele amor que só Deus nos ensina!
Se com isto és feliz, sem a glória falaz,
És um bom sacerdote e podes ir em paz!
(Vicente Félix de Queiroz)
Essas palavras estão afixadas em letras imensas, bem na entrada da biblioteca da faculdade onde estudei. São de muito tempo atrás, mas acredito que, ainda hoje, tenham o poder de inspirar quem por lá passe.
Os estudantes de Medicina chegam selecionados por meio de uma maratona de provas altamente competitivas. Precisam saber de tudo! Mas será que pensaram em se tornar “sacerdotes de uma sagrada missão”?
O certo é que são jovens que se dedicaram intensamente aos estudos desde muito cedo. Exploraram o melhor de sua capacidade cognitiva com disciplina, e superaram a si mesmos para chegar lá. Em seis anos de faculdade, aquele pós-adolescente de cabeça raspada e cara pintada vai ser transformado em médico. Como ferro forjado a fogo, vai se tornar mais flexível, mais resistente, menos corrosível e mais fácil de soldar. De metal rústico, ganhará algum brilho e estará apto a exercer sua função.
Ser forjado a fogo inclui uma série de experiências e conhecimentos, explícitos e tácitos. Dizem que se aprendem cerca de 9.000 novos vocábulos. “Mediquês” é quase uma nova língua! Enquanto vamos estudando anatomia, biofísica, estatística, psicologia médica, imunologia, propedêutica e técnica cirúrgica, vamos também superando o sono, o cansaço físico, dominando a impaciência e o medo, aprendendo a não julgar, a acolher o que parecia repulsivo e a incluir o diferente, a escutar e a trabalhar em equipe. Entre treinos na Atlética ou reuniões do Centro Acadêmico, participação em Ligas ou no Departamento Científico, vamos conhecer os mais diferentes tipos de dor. E precisamos nos manter fortes, porque estamos lá para ajudar!(*)

Contudo, acontece também de sermos quebrados. Por isso, a obsessão pela excelência precisa sempre ser aparada pelo reconhecimento da nossa imperfeição. O que não sabemos, o que não podemos, o que não suportamos. As horas de sono que necessitamos. Os cuidados que devemos dedicar à nossa própria saúde. O tempo que precisamos dividir com nossa família e nossos amigos. E mais um tempo para apreciar as Artes, para mergulhar na Natureza e para escutar o Silêncio, porque a alma clama! Precisamos saber pedir ajuda. Não somos capazes de atender às expectativas de todos.
De fato, somos pequenos frente aos desafios da Medicina. Precisamos manter o senso crítico sempre atento para filtrar as informações. Os podcasts, os resuminhos do Instagram e dos Medcursos não são nossas fontes de conhecimento. A popularidade dada pelo número de seguidores nas redes não é nosso parâmetro de qualidade, nem de confiabilidade, e muito menos pode se tornar objetivo profissional.
Devemos tomar decisões embasadas em evidências científicas e temperá-las com sensibilidade e respeito ao indivíduo. Isso vale para todos nós que abraçamos a Medicina, não importa se o colega provém de escola pública ou privada, do Norte ou do Sul, de vaga de quota ou não. Se é campeão de jogos universitários ou membro de coletivo de minorias. Se toca violino na orquestra ou se cultiva horta orgânica nas horas vagas.
Quando nos despimos da jactância e vestimos nossa humanidade, damos conta do quão longa e inacabada é a nossa Arte. E a nossa Missão requer toda essa integridade.
Dedico ao meu Arthur, e aos queridos estudantes de Medicina cuja trajetória de vida acompanho de diferentes formas. (*) Sobre a questão da busca da excelência na formação do médico, há um artigo que eu gosto muito: "Medicina, Jazz e a Busca pela Excelência", de autoria do psiquiatra Dr Guilherme Spadini.

[…] E nunca, nunca, nunca mesmo pare de estudar. […]