
O chamado “chip da beleza” caiu nas graças de muitas mulheres que buscam melhorar desempenho físico, massa magra e disposição. Quem não gostaria de uma medicação mágica que tivesse esses efeitos sem a necessidade de muito esforço ou tempo dedicado aos cuidados com a saúde?
Por outro lado, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia têm expressado suas preocupações e reivindicam restrições ao uso indiscriminado do “chip da beleza”. Para explicar essa questão do ponto-de-vista médico, que preza sobretudo pela segurança e se norteia por evidências científicas, Panacea traz, a seguir, o texto da Dra Sílvia Corral de Arêa Leão Souza, membro da SBEM.
O que é o “chip da beleza”?
O “chip da beleza” consiste de um implante hormonal contendo a gestrinona, que é colocado no tecido subcutâneo de mulheres, ou seja, sob a pele.

A gestrinona é um esteróide sintético do grupo da 19-nortestosterona comercializado na Europa, Austrália e América Latina, usado, principalmente, no tratamento da endometriose.
Ela foi desenvolvida no início dos anos 1970 inicialmente para ser usada como contraceptivo oral semanal na Europa e na América do Norte, mas não mostrou vantagens em relação a outros anticoncepcionais orais e os estudos foram interrompidos.
Efeitos terapêuticos no tratamento da endometriose
A partir de 1982, esse medicamento despertou interesse crescente devido aos efeitos terapêuticos no tratamento da endometriose. Para esse uso, quando administrado por boca,
a gestrinona demonstrou eficácia e pode ser usada por um período máximo de 6 meses.
A gestrinona tem propriedades contrárias ao efeito dos estrogênios e progestogênios (hormônios femininos) e semelhante aos androgênios (hormônios masculinos). Além disso, ela inibe a liberação de hormônios da hipófise que regulam a função dos ovários (gonadotrofinas).
Devido a essas ações, ela mostrou benefícios para o tratamento da endometriose quando usada por via oral. Mas nunca houve estudos sobre outras formas de administração, como
no caso dos implantes.
Aqui no Brasil, o registro da gestrinona via oral para o tratamento da endometriose na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) foi feito em 1996. Como não existe produção de gestrinona pela indústria farmacêutica no Brasil, para que ela seja utilizada, ela é formulada por farmácias de manipulação, tanto por via oral quanto para uso por meio de implantes hormonais (isolada ou associada a outros hormônios), muitas vezes em doses mais elevadas do que seriam recomendadas para o tratamento da endometriose.
Por seus efeitos androgênicos (como diminuição de massa gorda, aumento de massa muscular, aumento de libido), a gestrinona tem sido usada de forma equivocada por mulheres que procuram melhora física e estética, sem que elas avaliem os potenciais riscos da substância.
E esse uso excessivo e indiscriminado vem preocupando muito a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), que publicou um posicionamento oficial e conseguiu a proibição da propaganda da gestrinona feita por médicos e clínicas.
Mas se ela melhora a disposição, libido e massa magra, quais são os riscos do uso dessa medicação?
Muitos dos efeitos adversos da gestrinona ocorrem devido à sua atividade androgênica. Esses efeitos incluem acne, aumento da oleosidade da pele, aumento dos pelos corporais,
queda de cabelo, ganho de peso, mudança do timbre da voz e aumento do clitóris.


Acne e perda de cabelo são alguns dos efeitos indesejados do “chip da beleza”.
A maioria dos pacientes desenvolve pelo menos um evento adverso enquanto toma este medicamento. A gestrinona reduz significativamente as concentrações de HDL-Colesterol (colesterol bom), embora ainda não haja estudos que avaliem se ela pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, como infarto.
Rotineiramente, recebo no consultório mulheres queixando-se dos efeitos adversos do uso da gestrinona.
Nessas consultas, percebo que elas não foram adequadamente orientadas sobre esses efeitos, os aspectos que deveriam ser monitorados ou o que pode acontecer física ou laboratorialmente com a colocação desses implantes. E, como a gestrinona é manipulada, não há bula completa, deixando a paciente sem as devidas informações básicas sobre indicações aprovadas pela agência regulatória, posologia, interações medicamentosas, estudos de segurança e eficácia e efeitos adversos.
Caso você esteja pensando em colocar um implante de gestrinona, acreditando que ele trará benefícios para você, converse cuidadosamente com seu médico sobre a dose que será utilizada e todos os riscos associados ao uso da medicação. Avalie se você tem outros problemas de saúde que podem ser agravados pela gestrinona, como problemas hepáticos, alteração do colesterol, diabetes, risco de trombose, entre outros.
Tire todas as suas dúvidas antes de se decidir. Afinal, é sua vida e sua saúde que estão em jogo.”

Sobre a Autora:
Dra. Sílvia Corral de Arêa Leão Souza, CRM: 82333
- Médica formada pela Universidade de São Paulo (USP São Paulo).
- Residência médica em Endocrinologia e Metabologia no Hospital das Clínicas da USP São Paulo.
- Doutora em Ciências pelo serviço de Endocrinologia e Metabologia da Disciplina de Clínica Médica da USP São Paulo.
- Membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
- Membro da Endocrine Society
- Membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Referências:
Gestrinone: Uses, Interactions, Mechanism of Action | DrugBank Online
Gestrinone – Australian Prescriber (nps.org.au)
Gestrinone: Indication, Dosage, Side Effect, Precaution | MIMS Malaysia
Gestrinone versus danazol in the treatment of endometriosis – ScienceDirect
Posicionamento da SBEM sobre Implante de Gestrinona_2021
