Cirrose

A cirrose chegou sem avisar. Veio silenciosamente, enquanto você cuidava do seu trabalho e da sua família. Na ânsia de resolver os seus problemas do dia-a-dia, de crescer e de abraçar o mundo, não havia muito espaço para os cuidados com a sua saúde. Até que um dia, um exame detectou que algo sério estava acontecendo no seu fígado. E foi assim que a palavra “cirrose” passou a fazer parte das nossas conversas. Tempos depois, aconteceu a primeira hemorragia. Naqueles dias na UTI, o medo tomou conta de você. E a raiva, também, por causa da limitação que a doença impunha.
Depois, a situação se equilibrou. Na medida em que você ficou bem, a palavra ‘cirrose’ deixou de ser temida. A vida retomou o seu ritmo.

Na lista de espera por um transplante de fígado

Nos últimos sete anos, eram aqui e acolá uma infecção, um exame mais alterado, e fazíamos o ajuste na prescrição. Quando esses eventos começaram a ficar mais sérios, chegou o dia de entrar na fila de espera por um transplante hepático.

Neste último ano, você passou a vir semanalmente ao hospital. Vinha drenar o líquido que se acumulava no abdômen, colher exames e receber medicações. Para todas as dores e desconfortos, dizíamos sempre o mesmo: “É preciso paciência, o transplante resolverá.” Foi assim que, antes rejeitado e temido, o transplante passou a ser desejado.

Dias difíceis

A família veio se tornando mais presente e apreensiva, e você cada vez mais acamado e dependente. Não lhe faltam videochamadas, mensagens e preces das pessoas que o amam.
Carrego a responsabilidade de lhe conduzir por este túnel. Encefalopatia, erisipela, ascite, hemorragia, transfusão de sangue, paracentese, diálise… Quisera poder poupar-lhe deste percurso.

esperança no amanha

A espera é longa. A incerteza nos consome. Você resistirá até que chegue um órgão? Os dias se passam, você me questiona se os exames estão melhores, se a equipe cirúrgica não deu notícias… mas já sabe que as respostas são negativas.

A doação

Até que enfim, o telefone toca para avisar que apareceu o doador! Sua esposa, seus filhos, seus irmãos, até a sua mãe idosa vibram acaloradamente. Em breve, a equipe cirúrgica fará o transplante. Renovam-se as esperanças pela vida!

paciente aguardando transplante hepático por cirrose

O doador

Você pensa no seu doador. Talvez fosse um ciclista jovem ou a mãe de crianças pequenas? O certo é que o doador é alguém que já está fazendo muita falta onde deixou de estar presente. A alegria não vem sem a dor.

Ser médica

Um turbilhão de sentimentos me arrebata. Esperança, tristeza e alívio se misturam com uma imensa gratidão por tudo e por todos. Gratidão por estar nessa jornada. Não basta estudar e prescrever o que está nos artigos científicos. É preciso escutar, entender o doente no contexto do seu núcleo domiciliar. É preciso integrar familiares, cuidadores, profissionais da saúde, colegas de outras especialidades e de equipe para que todos se alinhem em busca do melhor para o paciente. É preciso confiar na experiência, mas ter sensibilidade e abertura para o novo, para o diferente ou para a exceção. É preciso reconhecer e aceitar meus limites. Desço as escadas com um nó na garganta, com aquela imagem do meu paciente emagrecido, acamado e, finalmente, com olhar de esperança. Na rua, a frente polar congela as pontas dos dedos e do nariz. Respiro fundo. Já não sei se é o céu que está cinzento ou se são as lágrimas que me turvam a visão. Amanhã, tenho certeza, o sol voltará a aquecer nossos sorrisos.

Escrito por

Marta Deguti

Médica hepatologista, nipo-paulistana de nascimento e de coração, casada, mãe de dois filhos, de um cãozinho e de uma gatinha.